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Começo Difícil, Final Feliz

Trabalhar em casa pode ser ótimo – desde que você se prepare para os pequenos obstáculos que costumam aparecer no meio do caminho

Por Márcia Rocha

Um dia acontece: seu chefe diz à queima-roupa que decidiu mandar você embora. Diante de sua expressão de pavor, ele explica que não, não está falando em demissão. Na verdade, quer que você continue na companhia, só que trabalhando em sua própria casa — e, para isso, vai ajudá-lo a montar um escritório lá. Você passa, então,a se imaginar dormindo até meio-dia ou assistindo a televisão às 3 da tarde. É sempre assim quando se fala no sistema de home office, o proclamado escritório em casa: as pessoas só pensam no lado positivo. E aí tomam um susto quando percebem que o lugar onde moram e seu local de trabalho viraram uma coisa só, e que em casa, em geral, o serviço não rende.

O home office vale tanto para profissionais autônomos quanto para os que mantêm vínculo formal com a empresa. Mas, para falar deste último caso, a palavra mais adequada é teletrabalho. Isso porque a expressão home office não diz respeito à atividade profissional propriamente dita, mas ao local em que ela é realizada. “Teletrabalho vem do inglês telecommuting e se refere ao processo de levar o trabalho até o funcionário, e não o contrário, utilizando a tecnologia”, diz Álvaro Mello, autor de Teletrabalho — O Trabalho em Qualquer Lugar e a Qualquer Hora (Ed. Qualitymark).

Bom para a empresa, melhor para o funcionário

O Brasil tem cerca de 3,5 milhões de teletrabalhadores atualmente. Para se ter uma idéia de quanto o sistema ainda pode crescer, os Estados Unidos têm mais do que o triplo: 12 milhões. “Em 70% dos casos, a iniciativa de trabalhar em casa parte do próprio funcionário”, afirma Mello. E, quando uma empresa adota esse sistema, está pensando basicamente em duas coisas —melhorar a qualidade de vida de seus empregados e aumentar seus lucros. “Pode haver uma redução de até 30% nos gastos que a organização tem com aquele funcionário”, diz Mello. Isso sem falar no dinheiro que entra a mais no caixa. Alguns especialistas no assunto falam em um aumento de até 50% na produtividade do profissional que passa a trabalhar em casa. “Isso porque há determinadas funções, como a de um funcionário do departamento jurídico, por exemplo, que não exigem que a pessoa vá trabalhar na empresa”, diz Tácito Pinto, consultor de desenvolvimento organizacional da Siemens do Brasil.

Neste ano, a empresa terá condições de mandar pelo menos 50 dos seus 7 000 funcionários trabalhar em casa. “O plano de migração costuma demorar de dois a três meses e, para preservar o vínculo com o grupo, queremos que os funcionários reservem 20% de seu tempo para realizar atividades presenciais na empresa”, diz Tácito. Já na Shell, desde o ano passado 260 pessoas da área de vendas e de engenharia estão passando por essa experiência. “Fazê-los vir ao escritório significava um grande número de horas improdutivas”, diz Sandra Saldanha, gerente do Projeto Office 2001 da Shell. Ao mandar um funcionário para casa, a Shell cede, em sistema de comodato, todos os equipamentos necessários, além de repassar uma verba para ajudar na adaptação física do espaço onde será instalado o futuro escritório.

O que as empresas estão constatando, no entanto, é que o processo de migração nem sempre é um mar de rosas.

Na Nortel, por exemplo, empresa canadense de telecomunicações, 3% dos 15 000 funcionários selecionados em todo o mundo para o esquema de teletrabalho não se adaptaram. É comum que pessoas não muito flexíveis sofram para se adaptar nos primeiros dias de expediente em casa. Aquelas que não são organizadas também. O ideal, dizem os especialistas, é recrutar funcionários que já estejam executando suas funções há mais de três anos, tempo suficiente para a chefia ter condições de avaliar a personalidade e o desempenho profissional de cada um. Além de organização e flexibilidade, existem algumas outras características que fazem um funcionário ser um potencial teletrabalhador: autoconfiança e motivação, além de ter uma boa rede de contatos, porque isso mostra que a pessoa é do tipo que procura as outras e não fica esperando que elas deêm notícia.

Agora é com você

Se a empresa vai mandá-lo para casa, você deve tomar algumas providências para driblar os possíveis obstáculos e fazer essa história ter um final feliz.

Indisciplina

Uma das maiores inimigas de qualquer profissional, principalmente dos que não saem de casa para trabalhar. Lembre-se de que seu chefe não está por perto, mas vai cobrar resultados sempre. Portanto, evite surpresas desagradáveis, agendando — e cumprindo — suas atividades. A disciplina também vale para estabelecer o número de horas que você vai trabalhar por dia. “Apenas tome cuidado para estar disponível no período em que a maioria do pessoal do escritório também está”, diz Tácito.

Falta de motivação

Para algumas pessoas, a desmotivação tem a ver com a natureza de suas funções. Para quem trabalha em casa, essa falta de interesse pode surgir porque, com o tempo, há uma certa mistura entre a vida pessoal e o trabalho. “É preciso manter certos rituais para conseguir essa distinção”, diz Tácito. Muitas pessoas resolvem isso de um jeito simples: vão tomar o café da manhã na padaria ou se vestem como se fossem trabalhar fora.Aparência tem tudo a ver com auto-estima e, por conseqüência, com produtividade. “Sempre digo que a roupa ideal para trabalhar em casa é aquela que você usaria para ir ao supermercado, por exemplo”, diz Tácito. Ou seja: esqueça o pijama.

Culpa

Outro sentimento comum entre os teletrabalhadores de primeira viagem. Afinal, estamos acostumados a relacionar nossa casa com o lazer. Para acabar com a culpa, acompanhe seu progresso, vendo tudo o que você é capaz de fazer, mesmo trabalhando em casa.

Solidão

Não há ninguém por perto? Marque almoços e happy hours com os colegas. Algumas empresas que têm programas de teletrabalho estipulam idas periódicas à companhia. Além de manter o espírito de equipe, evita que o profissional ache que está ficando invisível para os colegas e, pior, para os chefes.

Pouco espaço

Pode parecer bobagem, mas ficar trancado todos os dias em um cubículo acaba com qualquer entusiasmo. Reginaldo Zanella, gerente de vendas da Siemens para a América Latina, ficou um ano e meio usando seu quarto como escritório. “Era difícil, porque minha mulher queria dormir e eu tinha de trabalhar”, diz.

Em seu livro Empregue Seu Talento (Ed. Cultura), o consultor Gutemberg Macedo diz que quem vai montar o escritório em casa deve se preocupar com conveniência, conforto, funcionalidade e privacidade. Comprar duas linhas telefônicas, por exemplo, evita o constrangimento de ter suas ligações profissionais atendidas por seus filhos ou pela empregada.

Apetite insaciável

É incrível o que uma geladeira ao alcance das mãos pode fazer com seu apetite. Procure se controlar e se alimente exatamente como você fazia quando trabalhava fora. Senão, adeus, boa forma.

Síndrome do “já que”

Sua família e seus amigos precisam entender que você está tra-ba-lhan-do. “Isso evita aquela história do ‘já que você está em casa, aproveite para levar as crianças à escola'”, diz Tácito. Para evitar esse transtorno, o programa de teletrabalho da Siemens vai incluir também orientação para a família do funcionário.

Marcação cerrada do chefe

Não é só o funcionário que precisa se adaptar ao teletrabalho, a chefia também. “A confiança é fundamental nesses casos”, diz Mello. Se o seu chefe anda pegando demais no seu pé, converse sobre o assunto e apresente resultados. Não existe argumento mais convincente.

Disponibilidade 24 horas

Atender a ligações profissionais na hora do almoço ou às 11 da noite faz parte da vida de qualquer teletrabalhador, principalmente dos que têm contato com pessoas de outros países. Mas sempre que possível, em casos de telefonema, sinalize que é melhor conversar durante o horário comercial.

Reprovação dos colegas

Muitas pessoas têm dificuldade para entender que trabalhar em casa não significa trabalhar menos. Ogerente precisa deixar claro para todos que teletrabalho não é prêmio nem punição.Quer dizer apenas que a pessoa vai exercer suas atividades profissionais em outro lugar. E ponto final.

No início, torci o nariz

“Quando meu chefe me propôs trabalhar em casa, confesso que não fiquei muito entusiasmada. O argumento que ele usou era o de que eu viajava a maior parte do tempo. Tive medo de não me acostumar. Afinal, já fazia 18 anos que eu saía de casa todos os dias rumo ao trabalho. A conversa ficou no ar. Quando engravidei do meu segundo filho, que hoje tem 2 anos, combinamos que eu iria aproveitar o embalo da licença-maternidade para mudar aos poucos meu esquema de trabalho. Adotei umas regras que facilitaram muito minha adaptação. Por exemplo: me arrumo sempre antes de começar o dia, com o mesmo cuidado que tinha quando trabalhava fora de casa. Também tenho um acordo com meus filhos para que não me interrompam enquanto estou ocupada. Quando você trabalha em casa, está sujeito a imprevistos que, provavelmente, seriam contornados mais rápido em uma empresa. Às vezes, falta luz o dia inteiro. Nessas horas, meu único contato com o mundo é o telefone.

A correspondência interna também demora mais para chegar porque a empresa não tem malotes diários para Niterói, onde moro. São ossos do ofício, mas eles não atrapalham o prazer que sinto em estar perto da minha família e de ser dona do meu tempo. Agora estou investindo em uma coisa que sempre gostei de fazer: cantar. Tenho aulas todas as sextas à tarde, o que provavelmente não seria possível se trabalhasse no esquema convencional.”

Cláudia Martello 36 anos, gerente de cheques de viagem do Cone Sul da American Express

Às vezes, me sinto sozinho

“A Shell me mandou trabalhar em casa há pouco mais de um ano. No começo, montei o escritório no quarto dos meus filhos (sou divorciado e eles moram com a mãe). Quando vinham me visitar no fim de semana, eles dormiam no meu quarto. Não demorei muito para perceber que estava cometendo um erro: eu acordava exausto na segunda-feira. Hoje, meu escritório fica na sala. Não é o ideal, porque a casa fica um pouco bagunçada. Às vezes, também trabalho na sacada para apreciar a vista. Acho que demorei uns três meses para me adaptar totalmente. Passei a beliscar comida o dia inteiro. Só não engordei porque faço exercícios diariamente. Aliás, já me senti culpado quando saí, algumas vezes, para correr (estou treinando para uma maratona) na hora do almoço. Mas o mais difícil até hoje é a falta do convívio com os colegas. Era muito bom pensar alto um problema e alguém aparecer com uma solução. Para colocar a conversa em dia, eu e minha equipe tentamos agendar pelo menos um almoço por semana.

Nesses encontros, falamos de trabalho, sim, mas combinamos que é proibido despachar. Brincamos que é a reunião dos officeless, dos sem-escritório. É impressionante como meu dia passou a render mais. Antes, chegava na Shell por volta das 8 da manhã e trabalhava até mais ou menos 7 da noite. Hoje, começo no mesmo horário e termino tudo às 5 da tarde. Acho que sofreria muito se tivesse de voltar ao sistema antigo.”

Paulo Cesar Carvalho 39 anos, gerente de engenharia da Shell

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