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O Inferno De Cada Um


 

Não podemos ser inocentes e pensar que empresas são apenas entidades jurídicas. Empresas são formadas por pessoas e só existem por causa delas. Por trás de qualquer decisão, de qualquer erro ou imprudência estão seres de carne e osso. E são eles que vão viver as glórias ou o fracasso da organização. Por isso, quando falamos de empresa ética,. estamos falando de pessoas éticas. Uma política interna mal definida por um funcionário de qualquer nível pode atingir em cheio os   maiores patrimônios de uma empresa: a marca e a imagem.

 

Não são apenas funcionários e consumidores  que recriminam políticas antiéticas nas empresas. Os investidores também costumam fugir delas. Pegam seu dinheiro e aplicam em outro lugar. Um exemplo   disso é o episódio vivido recentemente pela Telefônica, a espanhola que comprou a Telesp, em São Paulo. Suas ações, na Espanha, caíram 5,5% em um dia, após denúncias de que seu presidente mundial, Juan Villalonga, teria usado informações privilegiadas em benefício próprio. Tudo começou no dia 2 de janeiro de 1998, quando Villalonga comprou opções de ações da Telefônica e as revendeu 13 dias depois. Seu lucro : 120.000 dólares. Justamente nesse período, descobriu-se depois, Villalonga estava negociando em segredo uma aliança com a norte-americana MCI WordCom. Quando o escândalo estourou, em meados de junho, a Telefônica divulgou comunicado oficial negando a acusação. Mas isso não impediu a reação negativa do mercado.

 

Não é preciso ser uma companhia de capital aberto para que decisões erradas tomadas por altos diretores  façam rombos no caixa da empresa. De acordo com dados divulgados pela imprensa , a Schering do Brasil teve um prejuízo de cerca de 18 milhões de reais – sem contar o custo da imagem- porque seus diretores foram omissos no episódio da pílula anticoncepcional falsa , em 1998. Embora o laboratório nada tivesse falsificado, a empresa foi displicente no controle do descarte de comprimidos produzidos sem princípio ativo. E quando soube que o remédio falso estava sendo vendido em farmácias, foi lenta para alertar a opinião pública sobre o fato.   Os diretores da empresa levaram 15 dias, depois de receberem a denúncia de uma senhora grávida, para notificar a Vigilância Sanitária. E só o fizeram no dia em que a notícia foi ao ar pelo Jornal Nacional, da Rede Globo. De vítima de roubo, ela passou a ser considerada uma empresa que não respeita seus consumidores. O advogado da Schering do Brasil, Cid Filho, disse a VOCÊ s.a. que os 15 dias eram o prazo necessário para fazer os testes e checar se os comprimidos eram realmente falsos. Na sua opinião, a empresa não foi omissa.

 

O que aconteceu com os profissionais que tomaram decisões duvidosas durante o episódio? A empresa manteve todos em seus cargos?  E o mercado , o que pensa sobre eles? “Quando recebemos um currículo de alguém que esteve numa situação delicada, somos muito mais rigorosos”, diz Laís Passarelli , headhunter em São Paulo, com atuação  nas maiores empresas do país. “Se o executivo estava ligado à área de atendimento ao consumidor da Schering, por exemplo, fica muito difícil separar a imagem do profissional do que aconteceu   na empresa”.

 

A ESTRATÉGIA DA  PREVENÇÃO

 

Para saber se uma empresa é ou não ética, não basta observar seu comportamento na hora da crise. Ao contrário, é preciso verificar a maneira como ela se planeja e cria soluções para evitar deslizes e escorregadelas. A prevenção é a palavra de ordem em qualquer empresa que valorize a ética nos seus negócios e no ambiente de trabalho. Regras claras  de condução dos negócios e de relacionamento em equipe, além  de campanhas para discutir os limites éticos, são fundamentais. O organograma deve ser montado de maneira a evitar que as pessoas tomem decisões sozinhas. Os líderes da organização devem ser os primeiros a dar o exemplo.

 

Entre as empresas veteranas em políticas que regem o comportamento ético está o laboratório Merck Sharp & Dohme. A empresa tem um sistema aberto de comunicação que estimula a pessoa   a consultar seu superior ou colega para tirar dúvidas, reclamar ou denunciar irregularidades éticas. Se não quiser se identificar, pode usar uma linha telefônica confidencial. O programa gera frutos incalculáveis para a imagem e a credibilidade da empresa. Recentemente, Isabel Cristina Silva, gerente de atendimento ao cliente do Merck, recebeu um telefonema da mãe de um doente com AIDS. Seu filho estava há 3 dias sem tomar o remédio fabricado pelo Merck por problemas no abastecimento em São Paulo. Era um caso grave . Isabel decidiu, então, mandar uma pessoa da sua equipe leva o remédio   á casa do paciente.

 

Como funcionária, Isabel não tinha nenhuma obrigação de enviar o remédio para o cliente. Mas a ética é parte de seu dia-a-dia. Além da meta profissional, que é tratar bem nossos consumidores, há uma satisfação pessoal imensa em poder ajudar o outro”, diz Isabel. Para profissionais como ela, o importante é trabalhar numa empresa que valoriza a solidariedade, a participação e o comprometimento dos funcionários. É de organizações assim que as pessoas têm orgulho de fazer parte. É nelas que os acidentes costumam acontecer com muito menos freqüência. O motivo é claro: elas estão bem mais atentas, preparadas para reagir com rapidez.

 

 

Sejamos francos: ética gera questões extremamente delicadas e, na maioria das vezes, de foro intimo. Não existe uma receita universal, pronta e completamente eficaz para pessoa, de consciência para consciência. “Cada um tem os seus limites, impostos por suas crenças e pelas leis, e deve segui-los” afirma o headhunter Alfredo José Assunção, presidente e sócio da Fesa, empresa de recrutamento de executivos de São Paulo.

 

O que fazer para andar com um pouco mais de segurança nesse terreno nebuloso? Eis algumas estratégias que podem ajudá-lo.

 

1.       Saiba exatamente quais  são os seus limites éticos. Reflita sobre as questões apontadas   no início do texto, por exemplo, Será que você vai se sentir confortável com as respostas? Não ficaria embaraçado ao contá-las a sua família, amigos e colegas de trabalho? Não faça nada que você não possa assumir em público.

2.       Avalie detalhadamente os valores da sua empresa. Verifique se eles combinam com os seus. Se sim, ótimo. Você está no lugar certo. Se não, as saídas são poucas: ou você muda as regras ou cai fora.

3.       Trabalhe sempre com base em fatos. Caso contrário, sua avaliação pode ser facilmente derrubada. Não julgue baseando-se em suposições.

4.       Avalie os riscos de cada decisão que tomar. Meça cuidadosamente as conseqüências do seu ato em relação a todos os envolvidos.

5.       Saiba que , mesmo ao optar pela solução mais ética, poderá se envolver em situações delicadas. Um ex-diretor de RH de uma multinacional argentina no Brasil lembra que chegou a ser ameaçado de morte quando iniciou uma investigação sobre desvio de verbas dentro da empresa.

6.       Ser ético significa, muitas vezes, perder dinheiro, status, benefícios. O que fazer com os presentes de Natal? Em muitas empresas, há um limite de valor para os brindes. Uma caneta, tudo bem. Mas e se ela for Montblanc? Essa situação não é nada fácil de administrar, principalmente para nós, brasileiros, que fomos criados sob ética da Lei de Gérson, do jeitinho, da vantagem acima de tudo. “Socialmente, aprendemos que é preciso fazer o correto , mas na informalidade  impera a idéia de que não há nada de errado em levar vantagem”, afirma Srour, da USP. “Há   corruptos em outros lugares do mundo, mas no Brasil pequenos delitos são apoiados e até elogiados por amigos e pela família. Isso ocorre em função da duplicidade moral típica da cultura brasileira.”

 

 

Os dilemas gerados pelo tipo de produto que a companhia produz não são novos. Os profissionais que trabalham em empresas de cigarro, bebidas alcóolicas ou armas os enfrentam há muito mais tempo. Não são raros os casos em que executivos recusam ótimas propostas financeiras porque não se sentem confortáveis com o tipo de produto feito pela empresa. “Eu estaria ultrapassando meu limite ético”, diz um executivo que esteve numa situação dessas e prefere manter o anonimato.

 

Voltemos ao início . Agir eticamente dentro (ou fora) da empresa sempre foi e será uma decisão pessoal. Uma vez que você tenha despertado para o assunto, mais e mais ele tende a ser considerado nas decisões , num processo permanente, sem fim. É claro que sempre estamos sujeitos a deslizes e equívocos. Nunca se esqueça, porém, de que esse costuma ser um caminho sem volta. Para o bem ou para o mal.

 

 

 

“Vigie seus pensamentos, porque eles se tonarão palavras; Vigie suas palavras, porque elas se tornarão seus hábitos; Vigie seus hábitos, porque eles se tornarão seu caráter; Vigie seu caráter, porque ele será o seu destino”

 

Pesquisa feita no site vocesa.com.br  com 11.955 votos apurados:

 

·         Mais de 70% dos participantes disseram que às vezes pegam a caneta Bic do colega, mas devolvem quando percebem que ela não é sua.

·         Quatro em cada cinco votantes disseram que não demitiriam um(a)funcionário(a) talentoso(a) por medo de que ele(a) tomasse seu lugar.

·         Quase a metade dos participantes respondeu que já disse- ou sabe de alguém que disse – ao cliente que o serviço ficaria pronto na data acertada, mesmo sabendo que não poderia cumprir o prazo.

·         Pouco mais da metade dos votantes assumiu que já faltou ao trabalho e disse ao chefe que estava doente.

·         Um em cada cinco participantes disse que “roubaria” a idéia de um subordinado.

·         Quatro em cada dez participantes disseram que já pediram ao garçom para aumentar o valor da nota do almoço ou conhecem alguém que já fez isso.

·         Praticamente 40% dos votantes afirmaram que dão risada (ou sabem de alguém que fez isso) das piadas do chefe mesmo quando elas não são engraçadas.

 “Difícil não é fazer o que é certo, é descobrir o que é certo fazer” Robert Henry Srour

 

“No final das contas, sua atitude determina sua altitude” ditado popular

 

VOCÊ s.a./JULHO 2000

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