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A Dor Psíquica

Dor incomensurável. Dor do nada, sem causa aparente. Dor de existir, que se reporta a um vazio que clama em vão por uma palavra que possa simbolizá-la. Dor obscura, sem limites, cujo sentido está velado para aquele que a sente.

Dor, pesar e desinteresse são características de quem perdeu algo. Mas enquanto para alguns é possível fazer um trabalho de luto, pelo reconhecimento de que o objeto da perda não mais existe, para outros parece que isso é impossível. Por não saberem exatamente o que perderam, caem no mundo obscuro e enigmático da melancolia.

Dor, etimologicamente, origina-se do latim vulgar dolore e designa dor física, sofrimento, dor moral, pena, desgosto, tormento, aflição e tristeza. A sensação desagradável é variável em intensidade e em extensão, na localização produzida pela estimulação das terminações nervosas especializadas em sua recepção. O intrigante é que o verbete “dor” também designa a oração feita ao meio-dia pelos parses (antigo povo da Pérsia que praticava o zoroastrismo), que para escapar das perseguições muçulmanas emigrou e se estabeleceu na Índia.

Dor também é sufixo nominativo de ofício, profissão, instrumento de ação; aquele que faz isto como ofício é um “faze dor”. Historicamente, busca-se uma definição para a dor que varia desde os primeiros tempos da humanidade.

Desde os primórdios da Psicanálise, Freud se interroga a respeito desse afeto, e a melancolia continua sendo até hoje uma afecção difícil de ser classificada. Muitas vezes confundida pelos próprios analistas diante da gravidade ou seriedade de um sofrimento, com a psicose procuram ter uma resposta à mão para o que pensam que não pode ser considerada como uma neurose; ou, pelo menos, não como uma neurose comum.<

Hoje se fala em depressão como o mal de nosso século, uma forma de globalizar um afeto difícil de ser enquadrado na nosografia psiquiátrica. À chamada “depressão maior” é atribuída muitas vezes causas orgânicas – quando não genéticas –, desvalorizando, assim, tudo o que é particular no sujeito: sua história, seu inconsciente, sua estruturação como ser de linguagem, sua sexualidade. Substitui-se o termo “melancolia” por “depressão”, dando-se invisibilidade à melancolia, da mesma forma como foi feito com a histeria, o que faz desaparecer seus traços distintivos, como a destrutividade e o sentimento de culpa. Tenta-se, assim, tratar o que é um afeto com drogas que, se por um lado, produzem um bem-estar passageiro, por outro tapam a boca de uma pessoa que já tem dificuldade de falar.

Cinza-depressão x histeria

O sofrimento psíquico manifesta-se atualmente sob a forma de depressão. O homem deprimido – atingido no corpo e na alma por essa estranha síndrome em que se misturam tristeza e apatia, busca de identidade e culto a si mesmo – não acredita mais na validade de nenhuma terapia. No entanto, antes de rejeitar todos os tratamentos, ele busca desesperadamente vencer o vazio do seu desejo. As chamadas “patologias do vazio” levaram a sociedade contemporânea a ser batizada de “sociedade depressiva”. No século XXI, a dor psíquica veste cinza-depressão, enquanto a Viena de Freud, no século XX, vestia seu sofrimento da alma com roupas histéricas.

Para nossa sociedade depressiva, a indústria farmacêutica descobre os antidepressivos de última geração, que têm grande circulação no campo médico e na psiquiatria em particular. O Prozac – fluoxetina – seria o primeiro desta série e o mais difundido. São medicamentos que atuam nos chamados neurotransmissores, como a serotonina e a noradrenalina. Essas drogas são portadoras de grandes esperanças, e deposita-se nelas a convicção de que transformarão o vazio do homem do nosso tempo.

Na década de 50, quando surgiram os antipsicóticos, o futuro contagiou a Psiquiatria com um novo tratamento da loucura. É verdade que essa terapêutica contribui, e muito, para tratarmos o psicótico, contudo as expectativas foram maiores do que os resultados obtidos.


O CORPO É UMA APREENSÃO
DOS SENTIDOS E DESDE
ANTIGÜIDADE O HOMEM SE
DEDICA AO ALIVIO DO
SOFRIMENTO.


Na sociedade depressiva, a presença dos antidepressivos de última geração anima os terapeutas. A advertência que aparece nas respectivas reportagens, nos coloca na retaguarda quanto ao uso generalizado dessa droga tanto no campo médico quanto na Psicanálise. Por outro lado, a própria doença, que se expressa no vazio, leva o doente a migrar de um tratamento para o outro na busca desesperada de vencer esse vazio mortal.

Nós mesmos, às vezes, migramos de nossas idéias psicanalíticas para outras formas de tratamento – incluindo os próprios antidepressivos – e combinando-as com a Psicoterapia. Quem sabe, às vezes, rápido demais. Seja porque o vazio do outro nos repercute com tanta força, que aderimos a uma via de descarga urgente; ou porque o imaginário social pensa nos antidepressivos para a dor cinza da alma. Entretanto, vamos memorizar que os antidepressivos ajudam, mas pedem cuidados.

Felicidade não percebida

Dor física é, em nosso ponto de vista, uma das dimensões da dor psíquica, porque o corpo é uma apreensão dos sentidos e, como tal, não é assimilado somente por sua biologia. Desde a Antigüidade o homem se dedica ao alívio do sofrimento. As civilizações mais remotas e longínquas reservavam cultos e espaços físicos para ritos cujos objetivos eram compreender o exorcismo do fenômeno do sofrimento humano.

Encontramos na Antropologia inúmeros exemplos de rituais dedicados aos deuses, bons ou maus, com a função de afastar os maus agouros e procurar o retorno a um estado nirvânico de bem-estar já vivido e almejado. Curiosamente, persiste na memória cultural, e quem sabe individual, desde as mais antigas culturas, a repetição de que houve uma época em que o homem era feliz e não sabia. Há a imperiosa necessidade de seu resgate. O surgimento da Psicanálise, com Freud, aponta para essa repetição, que ocorre não somente nas diferentes civilizações, mas também para o imperativo cultural e individual. O retorno a um bem-estar já vivido em tempos remotos, e que se exige resgatado, é imperativo reinante para cada indivíduo nas diferentes culturas e essencial para a espécie.

O sofrimento vem sendo a pedra angular da Ciência, o referencial que a impulsiona e o responsável por seu avanço. A fuga a ele, o seu desvencilhar, marcam toda a trajetória da existência da humanidade. Buscar alternativas de vida mais felizes, nem que seja na Lua, é o que torna a vida com sentido e o que aquiesce a realizar os sonhos. Os grandes feitos da humanidade e de cada indivíduo concretizam-se a partir da capacidade que se tem de sonhá-los e, conseqüentemente, realizá-los diante das condições da realidade.

 Dr. Evaristo de Carvalho
CRP 05-31410
Psicólogo e Diretor da Clínica Terapêutica Harmonya

Clínica Harmonya
Av. das Américas 4200, Ed. Paris, sala 120A
Barra da Tijuca – Rio de Janeiro
Tel. (21) 3150-2520

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