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Depressão – O vazio cinzento da alma

Dr. Evaristo de CarvalhoDor incomensurável, “do nada”, sem causa aparente, dor de existir, que se reporta a um vazio que clama em vão por uma palavra que possa simbolizá-la. Dor obscura, sem limites, cujo sentido está velado para aquele que a sente. Dor, pesar e desinteresse são características de quem perdeu algo. Mas enquanto para alguns é possível o luto pelo reconhecimento de que o objeto da perda não mais existe, para outros parece que isso é impossível. Por não saberem exatamente o que perderam, caem no mundo obscuro e enigmático da melancolia.

Desde os primórdios da psicanálise, Freud se interroga a respeito desse afeto, e a melancolia continua sendo até hoje uma afecção difícil de ser classificada. Muitas vezes ela é confundida pelos próprios analistas diante da gravidade ou seriedade de um sofrimento com a psicose, que tomam essa estrutura como uma resposta para o que não pode ser considerada uma neurose, ou pelo menos não uma neurose comum.

Hoje se fala em depressão como o mal de nosso século, uma forma de globalizar um afeto difícil de ser enquadrado na nosografia psiquiátrica, numa tentativa de classificar e conceituar esse afeto como doença mental. Às vezes surge a definição “depressão maior”, atribuindo-lhe causas orgânicas – quando não genéticas –, desvalorizando assim tudo que é particular no sujeito: sua história, inconsciente, estruturação como ser de linguagem e a sexualidade. Substitui-se o termo melancolia por depressão, dando-lhe invisibilidade, da mesma forma como fizeram com a histeria, o que faz desaparecer seus traços distintivos como a destrutividade e o sentimento de culpa. Tenta-se, assim, tratar o que é um afeto com drogas, que se por um lado produzem um bem-estar passageiro, por outro tapam a boca de uma pessoa que já tem dificuldade de falar.

O sofrimento psíquico manifesta-se atualmente sob a forma de depressão. Atingido no corpo e na alma por essa estranha síndrome em que se misturam tristeza e apatia, a busca de identidade e o culto a si mesmo, o homem deprimido não acredita mais na validade de nenhuma terapia. No entanto, antes de rejeitar todos os tratamentos, ele busca desesperadamente vencer o vazio do seu desejo.

As chamadas patologias do vazio levaram E. Roudinesco a batizar nossa sociedade como “A sociedade depressiva”; opinião compartilhada por outros autores. No século XXI, a dor psíquica veste cinza-depressão, enquanto a Viena de Freud, no século XX, vestia seu sofrimento da alma com roupas histéricas.

Para nossa sociedade depressiva, a indústria farmacêutica produz os antidepressivos de última geração, que têm grande circulação no campo médico e na psiquiatria em particular. O Prozac (fluoxetina) seria o primeiro dessa série e o mais difundido. São medicamentos que atuam nos chamados neurotransmissores, como a serotonina e a noradrenalina. Essas drogas são portadoras de grandes esperanças. Deposita-se nelas a convicção de que transformarão o vazio do homem do nosso tempo.

Na década de 50, quando surgiram os antipsicóticos, o futuro contagiou a psiquiatria com o novo tratamento da loucura. É verdade que essa terapêutica contribui muito para o tratamento do psicótico. Contudo, as expectativas foram maiores do que os resultados obtidos.

Na sociedade depressiva, a presença dos antidepressivos de última geração anima os terapeutas. A advertência que aparece nas respectivas reportagens nos coloca na retaguarda quanto ao uso generalizado dessa droga tanto no campo médico como na psicanálise. Por outro lado, a própria doença, que se expressa no vazio, leva o doente a migrar de um tratamento para o outro na busca desesperada de vencer esse vazio mortal.

Os Grandes Feitos De Cada Indivíduo Concretizam-Se A Partir Da Capacidade Que Se Tem De Sonhá-Los.

 

Nós mesmos, às vezes, migramos de nossas idéias psicanalíticas para outras formas

de tratamento, incluindo os próprios antidepressivos, combinando-os com psicoterapia. Quem sabe, talvez, rápido demais. É que o vazio do outro nos repercute com tanta força, que aderimos a uma via de descarga urgente. Outras porque o imaginário social pensa nos antidepressivos para a dor cinza da alma. Entretanto, vamos memorizar que os antidepressivos, embora ajudem, também pedem cuidados.

Dor física é, em nosso ponto de vista, uma das dimensões da dor psíquica porque o corpo é uma apreensão dos sentidos, e como tal, não é assimilado somente por sua biologia. Esses conceitos são discutidos e exemplificados com o relato obtido de casos reais. Desde a Antigüidade, o homem vem se dedicando ao alívio do sofrimento. As civilizações mais remotas e longínquas reservavam cultos e espaços físicos dedicados a ritos cujo objetivo era o de compreender o exorcismo do fenômeno do sofrimento humano.

Encontramos na Antropologia, inúmeros exemplos de rituais dedicados aos deuses, bons ou maus, com a função de afastar os maus agouros e procurar o retorno a um estado nirvânico de bem-estar já vivido e almejado. Curiosamente, persiste na memória cultural, e quem sabe individual, desde as mais antigas culturas, a repetição de que houve uma época em que o homem era feliz e não sabia. Há a imperiosa necessidade de seu resgate.

O surgimento da Psicanálise, com Freud, aponta para essa repetição, que ocorre não somente nas diferentes civilizações, mas também para o imperativo cultural e individual. O retorno a um bem-estar já vivido em tempos remotos – e que se exige resgatado – é imperativo para cada indivíduo nas diferentes culturas e essencial para a espécie.

O sofrimento vem sendo a pedra angular da Ciência, o referencial que a impulsiona e o responsável por seu avanço. A fuga a ele, o seu desvencilhar, marcam toda a trajetória da existência da humanidade. Ir à Lua para buscar alternativas de existência mais felizes é o que torna a vida com sentido e o que aquiesce a realizar os sonhos. Os grandes feitos da humanidade – e de cada indivíduo – concretizam-se a partir da capacidade que se tem de sonhá-los e, conseqüentemente, realizá-los diante das condições da realidade.

Dr. Evaristo de Carvalho
CRP 05-31410
Psicólogo e Diretor da Clínica Terapêutica Harmonya

Clínica Harmonya
Av. das Américas 4200, Ed. Paris, sala 120A
Barra da Tijuca – Rio de Janeiro
Tel. (21) 3150-2520

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